Os sacos pretos e azuis de Cosme e Damião

Rosiane Rodrigues

Não é de hoje que sinto falta das hordas de crianças correndo “atrás de doce” no dia 27 de setembro. Consagrado aos santos Cosme e Damião pelos católicos e incorporado ao calendário umbandista, a data registrada em minha infância como sinonimo de balas, suspiros, maria-mole e muita diversão (a gente nem ia para a escola, mamãe deixava comer doces o dia inteiro. Era uma festa!) tem meio que desaparecido das gerações mais jovens. Há pouco tempo, a proibição severa de uma mãe evangélica para que seu filho não chupasse uma bala – ofertada por uma vizinha de longa data, mas espírita – me chamou a atenção. Tanto a criança quanto a vizinha ficaram desconsertadas. Não sei se proibir o consumo de doces de Cosme e Damião é uma prática moderna de todas as religiões protestantes, mas nunca mais vi a tal senhora distribuir balas nas redondezas. Foi munida de todo meu espírito investigativo – e diante da constatação de várias pessoas – que resolvi procurar quem poderia me dar uma resposta definitiva ao assunto. Será que a tradição de entregar guloseimas no dia de Cosme e Damião está acabando?

Bom, se a data está saindo de moda do calendário religioso nada mais óbvio que ouvir os vendedores de doces para saber o que está acontecendo. Atuando na venda de doces e artigos para festas há 17 anos, o agnóstico Pader Martins (38), dono de uma loja no Méier, Zona Norte do Rio, foi quem revelou: “Nos meses de setembro e outubro só utilizo sacos pretos e azuis para empacotar os doces de Cosme e Damião”. A explicação veio de forma sucinta. “É que os compradores não querem ser identificados como pessoas que dão doces nessa época do ano e pedem a máxima discrição possível para a entrega”. A cor das sacolas não permite que os produtos sejam expostos aos olhares dos curiosos. Pader também cita um exemplo. “Tenho uma cliente de classe média alta, moradora de uma cobertura, na melhor rua do Méier. Ela esteve aqui e comprou R$ 700,00 de doces para serem distribuídos no dia 27, mas pediu que a entrega (na casa dela) seja feita depois das 19h, em sacolas não identificáveis. Acho que ela não quer que os vizinhos saibam da sua prática”, contou. Fui até o galpão da loja e vi várias sacolas bem amarradas e algumas caixas que em nada lembravam que ali estavam pacotes de guloseimas que – certamente – farão a alegria de centenas de crianças, na próxima segunda-feira.

Nenhuma pergunta tem uma só resposta. Para Patrícia Tavares (35), católica e gerente de uma loja no bairro do Pechincha (Jacarepaguá, Zona Oeste), que comercializa biscoitos e doces o ano inteiro, não há neste período um boom de vendas, mas também não há queda. “A venda de doces é perene. O que chama a atenção é que nos meses de setembro e outubro as pessoas que compram fazem questão de dizer que o produto não será distribuído no dia 27, em homenagem aos santos. Os evangélicos que vêem aqui dizem que as guloseimas serão distribuídas em suas igrejas para que as crianças não sejam tentadas a comer os doces doados nas ruas, que são do demônio”. Eis aqui um ponto interessante. Vale notar que esta é uma prática (comprar os mesmos doces oferecidos por religiosos ou não, para as crianças das igrejas) completamente diferente das restrições alimentares de outros segmentos religiosos. Patrícia, assim como Pader, acreditam que a tradição de Cosme e Damião sofreu alterações profundas. “Antes as pessoas saíam da loja com orgulho de suas compras, faziam questão de mostrar que iam fazer a homenagem aos santos. Hoje, têm vergonha”, concluem. Na loja do Pechincha as sacolas não mudam de cor, mas a rede dá a opção de que o cliente escolha entre a que tem a imagem dos santos estampada e a que não tem.

Quem somos nós para dizer o que é certo e o que é errado. Acredito apenas que a reflexão sincera, desprovida de dogmas e imbuídas de um profundo respeito ao próximo, pode contribuir para o debate. Fico pensando: mas o que um monte de doce pode ter de tão maléfico? Quem não acredita em santos – católicos ou não – deve ter medo de uma maria-mole dado ao filho no dia 27 de setembro? Proibir que nossas crianças devorarem guloseimas ofertadas por pessoas que não pactuam da nossa mesma visão de mundo não é, de certa forma, impedi-las de conviverem e respeitarem as diferenças? Será que o fundamentalismo religioso baseia-se em práticas aparentemente tão inocentes que sequer nos damos conta de seu alcance? Não seria este um momento festivo para que crianças de vários credos, cores e classes socias se conhecessem e brincassem juntas?

Não conheço nada que aproxime e integre mais crianças que brincadeiras e guloseimas. Nelson Mandela (líder da luta Anti-Apartheid, na África do Sul) já disse que para amar – ou odiar – é preciso aprender. Façamos a primeira opção, para que as próximas gerações possam viver o 27 de setembro (e todos os outros dias do calendário) com toda a alegria e contentamento que nós – os maiores de 35 anos, de todas as crenças, cores e classes – vivemos.

Rosiane Rodrigues é jornalista

Fonte: Jornal Extra – Blog Religião e Fé

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