Sobre o Livro “História da Umbanda- uma Religião Brasileira”- Alexandre Cumino

O tempo é muito limitante, mas quando lemos algo com real prazer, conseguimos horas, que passam céleres, para absorvermos e vivermos junto com as palavras grafadas de livros escritos com a alma.

Esse é um magnífico trabalho de revisão bibliográfica, onde o autor não se perde nenhuma só vez, não se distrai ao mostrar os dados históricos, e ao mesmo tempo denota-se a dedicação, a entrega, a obstinação em cumprir a missão, que ao nosso ver, foi atingida com êxito total.

Digo que foi um ato de entrega e disciplina, pelo rigor que emerge página a página, a começar mesmo pela dedicatória:

“Dedico este livro a todos os umbandistas que vão além do simples freqüentar ou praticar Umbanda, que estudam e se dedicam, de corpo, mente e espírito à Religião de Umbanda. A estes que afirmam de coração. Sou umbandista!”

Curiosamente, o que primeiramente atraiu fortemente foram os anexos, onde se iniciam pela história do Sr. Zélio de Moraes, aquela já conhecida por todos nós, acrescida do tempero de informações inéditas, segue com a verdadeira saga que foi a vida de Leal de Souza, depoimento de Pai Ronaldo Linhares, que conheceu pessoalmente o Sr. Zélio, e por aí vai… Permitam-me copiar um pequeno trecho de texto de Capitão Pessoa, texto esse até em então desconhecido por mim, chamado “O pastor da Umbanda”:

“…Foi ele (o caboclo das Sete Encruzilhadas), quem provocando uma guerra com os espíritos das trevas, diretamente interessados com a implantação dos trabalhos de magia negra, não vacilou um só momento em seguir o programa traçado e arrebanhando as suas ovelhas – verdadeiro Pastor de Umbanda– vai continuando a sua obra de propagação com as constantes inaugurações de Tendas, que filiadas ou não à Tenda N.S.da Piedade, são realmente suas, estão queiram ou não queiram os seus organizadores, debaixo de sua orientação espiritual.”

Não são ricas informações?

Mas, continuando, o anexo 7 traz um questionamento muito interessante.”O Espiritismo é uma religião?”. O que vocês acham ? Garanto que é muito interessante! E quando fala da conexão de Chico Xavier e a Umbanda. Chico! É um texto delicioso primoroso! Vamos relembrar um trecho que ali consta, do livro:

“Brasil, Pátria do Evangelho, Coração do Mundo”, psicografia do espírito Humberto de Campos, através de Chico, com prefácio de Emanuel: “ …A realidade é que, considerada ás vezes como excessivamente conservadora, pela inquietação do século, a respeitável e antiga instituição é, até hoje, a depositária e diretora de todas as atividades evangélicas da pátria do Cruzeiro. Todos os grupos doutrinários, ainda os que se lhe conservam infensos, ou indiferentes, estão ligados a ela por laços indissolúveis no mundo espiritual. Todos os espiritistas do país se lhe reúnem pelas mais sacrossantas afinidades sentimentais na obra comum, e os seus ascendentes têm ligações no plano invisível com as mais obscuras tendas de caridade, onde entidades humildes, de antigos africanos, procuram fazer o bem aos seus semelhantes.”

Para Chico, todo aquele que crê nas manifestações espíritas é espírita. E assim declarou: “…Pelo que estamos entendendo, os umbandistas crêem nas manifestações, logo são espíritas”. Como foi feliz, o nosso autor, nesse anexo sobre Chico!

No Anexo 9 temos um questionamento se a Umbanda foi fundada ou anunciada, e o autor relata que a mesma foi uma manifestação necessária, e ressalta que nenhuma outra entidade realizou o que o Caboclo Sete Encruzilhadas fez, pois foi feito com Ordem Superior, ocorreu desta forma um duplo assentamento, na Terra e no Astral, num texto muito bonito, simples e claro.

Vocês sabiam que Kimbanda é diferente de Quimbanda? Eu desconhecia o fato, e achei interessantíssimo o relato do anexo 10 a respeito.

Voltando ao texto principal, temos na introdução algo muito certo: a Umbanda é um organismo vivo e complexo, e é necessário ao ler livros como esse, esvaziar totalmente a xícara e lê-lo isento de pré-conceitos.

Muito bom, quando fala das origens da Umbanda, do Caboclo Sete Encruzilhadas que todos conhecemos e não cansamos de ler sua história, sobre o 1º Congresso de Espiritismo de Umbanda (em vários capítulos citado, estudado e colocado sob diversas luzes), e entre estes tópicos reescritos, outros que são de lavra rara, como trechos escritos da Revista Espírita de outubro de 1861, publicado por Allan Kardec, de seu dialogo com um antigo escravo africano chamado Pai Cesar. Outro parágrafo cita que os indígenas já conheciam um local chamado Aruanda, e como foi absorvida a palavra Jurema como um local no astral de onde provêm os Caboclos.

Ao expor sobre a Magia da Umbanda, que é matéria recorrente em todo o texto, o faz com elegância, evitando colocar os autores sobre o alvo de críticas, mesmo aqueles sabidamente mais polêmicos. A sobriedade é pautada, mesmo nos comentários sobre o grande amigo e companheiro Rubens Saraceni. Discreto sem ser formal em excesso, alimentando com combustíveis mágicos a leitura progressiva e constante. Não se pode deixar de pinçar uma primorosa frase de Rubens, sobre as diferentes formas de interpretar os mistérios de Deus, em todas as manifestações de Umbanda: “..A Umbanda possui esta flexibilidade; ela não impõe…. Ali está uma boa parte dos fundamentos da Umbanda, seu ritual é aberto ao aperfeiçoamento constante….E por que isso? Simples: tudo o que as granes religiões castram nos seus fiéis, o ritual umbandista incentiva nas pessoas que dele (o ritual) se aproximam..

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E que peculiar diversidade nos traz de seu estudo sobre a origem da palavra Umbanda? Quantas e quantas explicações, sintetizadas, ao nosso ver humilde, de um magistral objetivo: “Manifestação do espírito para a caridade”.

E sobre a Umbanda-religião? Mais dezenas de páginas magníficas, laureadas pelo depoimento igualmente magnífico de Leonardo Cunha dos Santos, bisneto do Sr. Zélio de Moraes parafraseando-o: “Se um centro de Umbanda cobrar, coloque os dois pés para trás e saia correndo, isso não é Umbanda!”

Aprendemos ainda em outro capítulo que Emanuel Zespo seria o pseudônimo do Professor Paulo Menezes, filho de Leopoldo Betiol, umbandista das primeiras luzes, e escreveu “Codificação da Umbanda” um livro que já não é publicado, raro, exótico, informativo e altamente polêmico…Mas comentado aqui, de forma serena e disciplinada como tudo mais.

E podemos dizer, para que todos fiquem bem curiosos, que há uma riqueza de fotos raras, antigas e novas, um acervo que por si já é um presente, nem vou descrevê-las, para que fiquem com bastante vontade de vê-las!

E vamos lendo, fluindo através das páginas, e vemos um estudo criterioso, estatístico da dificuldade inicial da implantação da Umbanda, num Brasil que a perseguia, mas mesmo assim, floresceu. Depois, inexplicavelmente houve um declínio progressivo, onde predominava a literatura espírita ou esotérica e sobre a Umbanda só havia alguns poucos livros, não muito bem redigidos, com pontos, orações, receitas populares. Dos anos 90 em diante, alguns fatores determinaram o renascer da Umbanda, entre eles a nova literatura, que copiando exatamente Alexandre Cumino : “falando linguagem simples, sem perder a profundidade em seus conceitos, surgirá também em romances umbandistas”. A partir dos romances de Rubens Saraceni, Cumino ainda continua, o modelo foi copiado e difundido e daí foram se avolumando os novos adeptos.

Logo no início, citamos que há muitos dados sobre o Congresso de Espiritismo de Umbanda. Queremos ressaltar que neste livro também se encontram informações sobre o 2º e 3º Congresso, o que significa para nós umbandistas uma valiosíssima fonte de informações. Mas temos de deixar aqui algumas pérolas, como as declarações de Cavalcanti Bandeira, preocupado com a permanência e sobrevivência da Umbanda como religião sistematizada . Através das palavras de Bandeira, ele cita Lourenço Braga:

“Se a Umbanda fôsse unificada, isto é, se todos trabalhassem nos mesmos dias, nas mesmas horas, da mesma forma, com o mesmo ritual, com os mesmos pontos riscados e com os mesmos pontos cantados, seriam os resultados de efeitos maravilhosos, seria uma sinfonia perfeita de vibrações harmoniosas, cujas conseqüências, para os filhos da terra, seriam surpreendentes e repletas de benefícios; devemos trabalhar para o progresso da Umbanda, mas de uma Umbanda como deve ser: isenta de materialidade, de ignorância, de atraso, de práticas condenadas pelo bom senso. Deve ser pura, elevada e evolucionista. Quanto se atinge um certo grau de progresso espiritual, não é admissível retroagir.”

Vamos apenas fazer uma ressalva própria, nada tem a ver com o estilo de Alexandre Cumino, que prima por ser apenas um historiador perfeito. Lourenço Braga escreveu inspiradamente, mas no entanto, quando delineou as Sete linhas por eles estudadas, já diferenciou-se de Leal de Souza (quem mais próximo estava do Caboclo das Sete Encruzilhadas e de Zélio), e inseriu a LINHA DO ORIENTE, enquanto eu também juntou em uma única linha a Linha de Santo com a Linha de Oxalá…, e colocou todos os Exus na Lei da Quimbanda. Porém, nada somos, em fomentar comentários menos bons ou contraditórios, e ficaremos neste tema por aqui.

Sobre Tancredo e Byron, da Umbanda Omolokô temos a oportunidade de ler transcritos seus, primorosos, como a lenda da origem da Pemba e seu uso mágico, e outras histórias contadas de forma leve e fácil entendimento.

Ainda sobre o recente aumento de adeptos à religião de Umbanda, Alexandre Cumino ainda cita reedições de Pai Ronaldo Linares, Diamantino Trindade, Wagner Veneziani Costa, Robson Pinheiro, Norberto Peixoto, Leni Saviski, Iassan Ayporê Pery, entre outros.

Voltando no tempo, mostra um capitulo somente com as pesquisas dos cientistas sociais ao longo dos anos, como Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Roger Bastide, Cândido Procópio, Diana Brown, Renato Ortis e outros, com muitas páginas escritas com seus pensamentos.

Para finalizar estas palavras, que espero sejam benéficas ao autor, porque todo o livro, cada pagina dele, me fez bem, me fez pensar, gostaria de chamar atenção para a coragem demonstrada por Alexandre Cumino no término do livro, no capítulo chamado “Crítica de fora”, onde coloca o pensamento exato dos cientistas sociais, e inicia com uma crítica severa do espírito Ramatis no livro “Missão do Espiritismo”. Mas este mesmo Ramatis, psicografado na época por Hercílio Maes, que de certa forma é irreconhecível para quem hoje lê suas obras através de Norberto Peixoto, no meio da crítica ferrenha, eis que Cumino acha uma frase fenomenal, intensa e verdadeira, com a qual gostaria também de fechar este texto, antes desejando muita Luz e Paz a todos.

“Indubitavelmente, a Umbanda, como seita, ainda não passa de uma aspiração religiosa, mas buscando sinceramente uma forma de elevada representação no mundo. Não apresenta uma unidade doutrinária e ritualística conveniente, porque todo “terreiro” adota um modo particular de operar(…).

Apesar dessa aparência doutrinária heterogênea, existe uma estrutura básica e fundamental que sustenta a integridade da Umbanda, assim como um edifício sob a mais flagrante anarquia dos seus moradores mantém-se indestrutível pela garantia do arcabouço de aço!

Da mesma forma, o edifício da Umbanda, na Terra, continua indeformável em suas “linhas mestras””. (grifos nossos)


Alex de Oxóssi

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