Etimologia do Vocábulo Umbanda

Retirado do livro “O que é Umbanda”- Dr.º Armando Cavalcanti Bandeira- Ed. Eco – 1970

O desenvolvimento etimológico do vocábulo UMBANDA, por parte de muitos no Brasil, e as falhas da maioria dos nossos dicionários, geraram confusões e controvérsias, pretendendo cada um dar a sua explicação, sem haver base concreta real. Entretanto, o termo sempre existiu e faz parte integrante da língua Quimbundo, como de muitos dialetos bantos, falados em Angola, Congo, Guiné, entre outros; basta consultar qualquer gramática ou dicionário relativo a essa língua, ou verificar as muitas citações na literatura.

O Quimbundo é uma das línguas com predominância em grande área da áfrica, como se pode verificar pelos estudos do Prof. Malcom Guthrie, da Universidade de Oxford, em seu livro editado em 1948, “The classifications of the Bantu Languages”, que delimitou precisamente a área geográfica e a influência local de cada grupo lingüístico banto, particularizando a zona inglesa no livro “The Bantu Languages of Western Equatorial África”, 1953, permitindo um melhor agrupamento da distribuição geográfica em Angola.

A língua geral dos angolanos é conhecida, também como angolês e bundo, continuando com outras semelhantes como o Quicongo ao Norte, Quioco e Lunda no Leste, e Umbundu ao Sul, oferecendo dois tipos definidos: o tipo de Luanda e o tipo de Ambaca,a que se refere José L. Quintão,e por influências portuguesas na catequese, comércio e governamental como nação colonizadora, sempre foi estudada e vários livros foram publicados.

Surgiu em primeiro lugar um catecismo do Pe. Paconio em 1643, reeditado em 1661 e 1784, sendo a primeira gramática e vocabulário de autoria do Frei Bernardo Maria de Cannecatim publicados em 1859, referentes às línguas bundo e congolesa. Entre outros, seguiu-se Wilhem Bleck, com vocabulário e gramática nos anos de 1862 e 1869, adotando o nome geral de línguas bantos.

Frei Cannecatim, no seu livro constituído de três partes, sob o título genérico “Coleções de observações gramaticais sobre a língua bundo e congolesa” e os dicionários que as integram, registram apenas: “Quimbanda – o impotente na língua bundo e Umbanda – barrete, nas línguas bundo e congolesa. Entretanto, nos dá as classes e as derivações dos nomes, que se acham melhor explicados em livros atuais.

Ora, o nome é comum na áfrica centro e sul, zona banto, e até na Guiné Francesa, constando perfeitamente audível três vezes no disco: Afrique – musique dês revenants, Collection du Musée de l´homme, França.

Deve ser registrado que há cerca de 34 anos, Arthur Ramos já escrevera “Linha de Umbanda”, dizem ainda os negros e mestiços cariocas, no sentido de prática religiosa, embora outros nos afirmassem que Umbanda era uma nação, e alguns, um espírito poderoso da nação de Umbanda. Nada conseguimos esclarecer, nesse particular, como nação ou tribo nos dicionários corográficos portugueses e alguns livros sobre as colonias portuguesas na áfrica. É possível que o informante tenha feito confusão com Quimbanda, povoação classificada no conselho de Malange, situada na área do post Sede, pertencendo à Arquidiocese de Luanda e fazendo parte do Socabo, conhecido pelo nome do Soba respetivo – Mucajé-ia-Quimbanda. Como consta do livro Império Ultramarino português, 1952, volume III.

Não sendo de todo impossível, como alguns pensam, e outros opinaram no 1º Congresso Brasileiro de Espiritismo de Umbanda, em 1941, que a origem remota repouse no orientalismo iniciático oriental, no qual o “mantra” AUM – BHANDA representa alto significado em sentido divino.

Sabemos que pelos contatos havidos, através do Egito ou da Índia, não é inverossímel que tivesse penetrado nas terras africanas, e em aculturações posteriores sofresse modificações, tanto no sentido inicial como na prática, dando o surgimento do radical banto mbanda, na formação lingüística dom termo quimbundo Umbanda, ligado às práticas religiosas de ocultismo mágico e tratamento dos membros das tribos em seus padecimentos, sendo uma ponte para a sua continuidade em terras brasileiras, como um culto em parte africanizado, pelas modificações dos séculos que se sucederam.

Outro fato deve ser ressaltado; é que Edison carneiro no livro “Religiões Negras”, afirma que ouviu o vocábulo quimbanda na mais legítima pronúncia banto, também na Bahia, a que não constitui fato inédito, pois já tivemos oportunidade de ouvir cânticos religiosos do ritual gegê, na Bahia, o que não constitui fato inédito, pois já tivemos oportunidade de ouvir cânticos religiosos do ritual gegê , na Bahia, nos quais a palavra umbanda é perfeitamente pronunciada.

Tem havido, sim, muita confusão entre os termos umbanda e quimbanda, inclusive nos significados.

Não deve essa expressão, em Quimbundo, ser confundida com feiticeiro, pois designam funções diferentes, enquanto o curandeiro é o Kimbanda, o feiticeiro é o Muloji, e vale como uma precisosidade a palavra do Cônego Antonio Miranda de Magalhães, que viveu muitos anos em Angola e publicou o livro “Alma Negra”, editado em Lisboa, no qual afirma que o mezinheiro, preparador de ervas, não deve ser confundido com o feiticeiro.

Há uma expressão, em quimbundo, que define muito bem a diversidade funcional:
O KIMBAND ` EKI KI MULOJI É
Este curandeiro não é feiticeiro

Para ilustrar referimos outra frase interessante:
NGEJIAMI UMBANDA
Conheci a arte de curar.

Desde o século passado, em 1894, que Heli de Chatelain, sem seu livro “Folktales of Angola”, registrava o termo do mesmo que hoje escrevemos, e mostrava a sua derivação gramatical e significado, como encontramos em qualquer dicionário KIMBUNDO, como grafam os portugueses, assim, nada há de mais claro e positivo.

Etimologicamente do verbo KU BANDA deriva, pela substituição do ´prefixo Ki da 3ª classe, o substantivo KI MBANDA, o qual significa em Angola: curandeiro, médico ocultista.

Sendo este substituído pelo prefixo U, forma um nome abstrato o qual designa arte ou ofício: U MBANDA, arte de curar, ofício de ocultista.

Está assim esclarecida a origem etimológica, embora haja controvérsias entre os estudiosos do Quimbundo, quanto ao significado do termo KUBANDA, pois, conforme as diferenças de pronúncias, altera o conceito original, em Angola, mas podemos afirmar em síntese:

UMBANDA –
TERMO DA LINGUA QUIMBUNDO, COMUM A VÁRIAS TRIBOS E DIALETOS ESPECIALMENTE ENTRE OS Umbundos, e segundo o etnólogo PE. Carlos Estermann (Etnografia do Sudoeste de Angola) “é bastante usado entre os Nhaneka-Umbi e igualmente conhecido pelos Cunhamas embora nestes com menos freqüência em seus cultos; entretanto não se restringe a Angola, pois, é encontrado na Guiné nos cânticos de invocação espiritual. Abrange alguns significados semelhantes; arte de curar, magia, (Pe. Domingos V. Balão- O Kimbundo sem mestre) e J. Cordeiro da Mata – dicionário Kimbundo- Português).
…bruxaria, magia, arte ou magia de encantar (A. de Assis Junior- Dicionário Kimbundo Português)
…ciência médica ou ciências médicas; originando-se de KIMBANDA médico (Pe Antônio da Silva Maia – Lições de Gramática de Quimbundo).
….arte de curar originando-se do verbo KUBANDA, subir de onde deriva o vocábulo KIMBANDA, curandeiro, do qual resulta o substantivo UMBANDA (José L. Quintão- gramática KIMBUNDO).

O etnólogo e historiador Oscar Ribas ( do Museu de Angola, em “Ilundu”, “Missosso”), define como ciência de quimbanda, referindo sobre a origem quanto ao termo KUBANDA, suponho tratar-se do verbo “subir” pois o espírito segundo a concepção local, vem de baixo para cima, e não de cima para baixo, como os espíritas.

A etnologista Ana de Souza Santos, do Instituto de Investigação Científica de Angola, em estudo detalhado sobre esse vocábulo, refere: “ Se na combinação de regras gramaticais se pode aceitar o modo como se articula o prefixo e radical de “Kubanda” para resultar “KIMBANDA” , e a relação desses vocábulos com “umbanda” tal como apresenta Cavalcante Bandeira, de acordo com o que preceitua José L. Quintão , a verdade é que em razão funcional e etimológica do termo “Kubanda” tal ligação deve ser rejeitada. Por isso, diz muito bem o autor: “Não podemos entender a modificação de sentido por falta de relação direta ou indireta da palavra “banda” que hoje na concepção usada não tem qualquer relação com o Quimbanda. De fato, o termo “kimbanda”(quimbanda), a nosso ver não derivou de “Kubanda”, subir, galgar, mas certamente de “kubanda” (note-se que há variações e pronúncia) consertar, remendar. Ora, visto uma das funções do curandeiro ser exatamente a de consertar os males físicos dos mortais, e muito natural que dali proviessse sua origem, ou então de “Kubanda”, sinônimo de prescrever, visto que receita, aconselha, prescreve, etc….mas há mais.também ao verbo “kubanda” é atribuído o significado de desvendar. Outorgando-se à missão do “kimbanda” cuidar do mistério das enfermidades psíquicas que, como se sabe, para isso, esse agente recorre às cerimônias de adivinhação, assim se estabelece mais uma relação entre “Kubanda” e “Kimbanda”. Quanto à “kubanda” ( ou banda) com o significado de subir, só aparece em toda a atividade de “kimbanda” e em práticas religiosas ou mágicas religiosas ( pelo menos dentro do que temos conhecimento durante as sessões dos “ilundu” (espíritos), quando o médium começa a entrar em transe, mas só no sentido de incitamento e aplauso. Com respeito ao vocábulo “umbanda”, se ele não pode servir para rotular um culto africano, como muito bem salienta Cavalvanti Bandeira, pode-se admitir que entre os bantos ele seja como que uma convergência de elementos culturais religiosos. Em Luanda, tem a “umbanda” ainda hoje uma feição característica apreciável como expressão de um processo ritualista orientado por uma entidade – a mãe de umbanda – (Many ia umbanda)- ou pai de umbanda (Pai ia umbanda), conforme for osexo feminino ou masculino . Modernamente há nesta sociedade quem traduza essa expressão por madrinha ou padrinho.

Podemos, assim, no Brasil, tentar uma definição : A UMBANDA É UM NOVO CULTO BRASILEIRO DO SÉCULO XX, PROVIDO DO SINCRETISMO RELIGIOSO DE PRÁTICAS E FUNDAMENTOS CATÓLICO-BANTO-SUDANESES, APRESENTANDO ALGUMAS FUSÕES AMERÍNDIAS E ORIENTAIS, COM OBSERVÂNCIA DO EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, CONSTIRUÍDO DOS PLANOS ESPIRITUAIS EVOLUTIVOS PELA REENCARNAÇÃO.

Em síntese: A UMBANDA É UM CULTO ESPÍRITA BRASILEIRO, COM RITUAL AFRO-AMERÍNDIO, ENRIQUECIDO COM ALGUMA LITURGIA CATÓLICA.

Como aliás, definia poéticamente o profundo conhecedor dos cultos, Fabico de Orunmilá:
“A UMBANDA É UM CULTO ESPÍRITA RITMADO E RITUALIZADO”

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