Igualdade e diversidade: um exercício de alteridade e de religiosidade, em um mundo plural.

Pai Etiene Sales

Eu sou igual a você?

Como você definiria um ser humano?

Começaria pela estrutura óssea, pela muscular, pele, pelos tipos e cores dos cabelos, pela forma e cores dos olhos, pelas cores dos dentes e suas formas … Talvez pelo temperamento, comportamento, hábitos, línguas … Ou seria pelas crenças, culturas religiosas, expressões de fé, formas de sentir e manifestar Deus ou os Deuses?

Parece fácil, mas não é facil definir o que é o ser humano, seja no biológico, no psicológico ou no espiritual. Isso porque somos da mesma espécie, Homo sapiens, mas somos tão diversos, tão plurais em nosso ser, pensar, manifestar e crer.

Vamos tentar fazer algo mais fácil: vamos definir Deus, já que a criatura é tão complexa, vamos ao criador… Piorou? Tá difícil? Complicou?

Bem, vamos então para a religião. Qual é a verdadeira religião feita por Deus? Ummmmm … bem … qual é a verdadeira verdade de fé, única e absoluta para esse nosso planeta chamado Terra?

Interessante, pois as pessoas tentam definir ou chegar perto de uma definição de religião, mas é tão difícil quanto definir o que é um ser humano, ou definir o que é ou como é Deus. Isso porque é complexo, e é uma visão que nunca abrange a tudo e a todos. Sejam da mesma espécie, sejam aqueles que creem em um mesmo Deus ou que fazem parte de um mesmo conjunto religioso.

Particularmente no caso da Umbanda, existem tentativas de especificar ou generalizar o que ela é, mas pelas prática de um ou de outro, naquilo que aquele setor, aquela ramificação, aquela forma de Umbanda pratica, ritualiza, doutrina, acredita, como se ela fosse o todo.

Alguns até dizem: foi Zélio, o C7E que fundou a Umbanda e a ele todos devem seguir em cada palavra, em sua forma de culto, mas nem no Cristianismo isso acontece, tendo mais de 150 vertentes do Cristianismo no mundo, sendo que uma é diferente da outra, embora cada uma acredite em Jesus ou em interpretações de Jesus ou em coisas que disseram de Jesus ou em re-interpretações de Jesus … Até com Jesus existem várias formas de vê-lo, senti-lo, adorá-lo, segui-lo … de acreditar. Porém, cada uma das formas de crença em Jesus, se diz a verdadeira, seja na palavra de salvação, seja na sua forma de rito e culto.

É diferente com a Umbanda? Existe a Umbanda verdadeira? Quem ela é? Existe uma única forma de culto, rito, doutrina, manifestação e adoração ‘a divindade?

Ao meu ver todas as formas de Umbanda são verdadeiras. Não se pode desqualificá-las por ter ou deixar de ter ritos, formas, doutrinas, fundamentos … Na realidade, o que irá dizer a sua verdade é o que ela faz de maneira digna, honesta, caridosa, na fé, na crença, nas atitudes, na preocupação e no zelo com o próximo, em sua moral e na manifestação
dessa moral, compromissada com uma ética de conduta, que não machuque o ser humano e, sua mente, fé, corpo, moral ou espiritualidade. Onde haja compromisso seguro e farto com o outro, no cuidado e educação do outro dentro daquela fé, onde haja respeito pelo que é feito em termos de religiosidade, seja para e com os guias, seja para e com os Orixás. Onde existe respeito pelo que o outro faz como Umbanda, sem vaidades, medos, arrogância, sem tentar denegrir o outro, só porque não se entende o que ele faz ou por ser diferente do que fazemos, mas que haja amor fraterno ‘as diferenças e, acima de tudo respeito a essas diferenças.

É fácil desqualificar, denegrir e diferenciar o outro, mas é tão difícil ser irmão, solidário, ter pensamento plural e reconhecer o outro como seu igual, pois existem pontos de referência e igualdade, mas é mais fácil ver o diferente e recriminá-lo.

Nisso perdemos a união, o respeito, a capacidade de nos juntar nas dificuldades, agindo pior do que aqueles que nos aviltam, nos denigrem, sejam em palavra, ou na depredação de nossas casas, pois pior do que o preconceito inter-religioso, entre religiões, é o preconceito intra-religioso, dentro da religião. Porque esse maltrata mais, dói mais, e é sentido muito mais profundamente, pois é um preconceito oriundo da ignorância, do desconhecimento do outro ou sobre o que o outra faz e é, como ente religioso, como casa religiosa, como membro de uma espiritualidade.

Na nossa ignorância e vaidade pelo todo, em nos ver como o todo, geramos o preconceito sobre o que nos fere os olhos, só porque não o aceitamos, só porque não o reconhecemos como um igual, porque não queremos aceitá-lo como um igual.
Queremos ser únicos, verdadeiros, evoluídos, perfeitos em nome e espiritualidade com Deus.

Só que Deus fez o diverso, o desigual, a pluralidade no e entre os seres humanos, e entre as religiões e dentro das religiões.

Negar o diverso, o plural, as diferenças, é negar a Deus a sua obra, é negar ao próprio Deus.

Só seremos fortes e unidos, se nos aceitarmos uns aos outros; só conseguiremos atingir a sociedade (mais diversa e plural que a própria Umbanda) se respeitarmos as nossas diferenças e aprendermos a conviver, harmonicamente, com essas diferenças; só cresceremos se deixarmos de querer ser praia, e nos contentarmos em ser pequenas pedras de uma grande praia chama Umbanda.

Que Yemanjá, senhora das cabeças, possa iluminar nossas cabeças e nossas mentes, para que haja menos preconceito entre os Umbandistas e entre as diversas Umbandas, e mais diálogo, mais entendimento e mais união.

Axé a todos.

Pai Etiene Sales

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