Preto-velho por quê?

Robson Pinheiro

Alguém perguntou por que o espírito João Cobú se manifestava assim, como um preto-velho, sentado no chão, com as pernas de lado, a voz potente e forte, tão diferente do médium de que se utilizava. Argumentava que não era necessário a nenhum espírito apresentar-se daquele modo; não havia motivos para esta caricatura tão rudimentar, arcaica talvez, própria de religiões apegadas a rituais e maneirismos pueris, segundo defendia.

Pai João ouvia atento.

Por que motivo escolher a aparência de um ancião se ele era espírito, e espírito não é idoso nem jovem é apenas espírito. Após alguns instantes em silêncio, Pai João disse:

— Meu filho, pelo que eu saiba o espírito já esclarecido pode se apresentar da forma que desejar para estar com os filhos da Terra. Cada um escolhe a vestimenta que mais lhe agradar. Não há por aí espíritos que se mostram como irmãs de caridade, padres, orientais, médicos e tantos outros? Por que o preconceito contra o velho ou a vovó? Será apenas porque a gente se apresenta como negro, ex-escravo? Isso por acaso desmerece a mensagem que trazemos? Por que não repelir espíritos que se manifestem como freiras, indianos ou doutores? Por acaso meu filho pensa que do lado de cá da vida só há diploma de médicos e eclesiásticos?

Pai João prosseguia:

— O problema, meu filho, é que velho não dá ibope para os médiuns e donos de centro. Mas, se além da visão do ancião e do linguajar singelo, a gente se mostra negro, aí sim: o preconceito de meus filhos fala ainda mais alto… Não há alforria que resolva; o preconceito é cativeiro pior que a escravidão. Negro, velho e, ainda por cima, morto… Nego acha que isso incomoda por causa do orgulho e do desejo que vocês têm de enquadrar tudo dentro dos padrões brancos, vamos dizer. Se é assim, meu filho, aceita o conselho de nego: vá procurar espíritos superiores, de médicos,
padres e irmãs de caridade, e deixa nego trabalhar quietinho, falando com simplicidade para aqueles que não entendem linguagem complicada.

Deixa nego trabalhar, cantou Pai João.

Na fazenda do nosso Pai, que é Deus, tem lugar para todos. Cada um faça como pode e sente que é correto, pois nem Jesus, nem Kardec deixaram escrito algum dizendo que espírito deve manifestar-se deste ou daquele jeito. João Cobú faz como sabe, trabalhando com alma e coração Quem souber fazer melhor, faça; ele respeita. Enquanto isso, os pais-velhos continuam pedindo ao Senhor que os deixe trabalhar, apenas trabalhar.

Retirado do Livro Sabedoria de Preto VelhoRobson Pinheiro

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