Enxergando as razões da Religião de Umbanda

Etiene Sales

Eu vejo que o grande problema da Religião de Umbanda são os próprios Umbandistas, em suas razões humanas, nas afirmações mais puras, muitas vezes, e dedicadas, do que seja a sua Umbanda e vendo essa sua Umbanda, uns com mais de 30, 40 anos de trabalho, como sendo a Umbanda ou tentando levar essa Umbanda aos outros como sendo a Umbanda para todos.

Esse foi e é o grande motivo de brigas e de afirmações que, ao longo da história da religião, trouxeram tantas mágoas, tantas dissensões entre as pessoas (existem outros, mas esse acaba sendo o pano de fundo para os outros).

Sei que é muito difícil, às vezes até impossível, por mais bondosa e dedicada que seja a pessoa, em aceitar mudanças de conceitos ou, de uma hora para outra, ter que ver e conviver com outras formas de Umbanda, enquanto ela acreditava que a sua forma ou a forma que lhe foi ensinada e passado durante anos e anos era a correta, a certa, a verdadeira.

A Internet trouxe proximidade entre pessoas do mundo todo; proximidade entre Umbandistas de todo mundo, mas também o confronto entre formas totalmente diferentes e, muitas vezes antagônicas, do que seja Umbanda em termos de ritos, práticas, fundamentos, doutrina e formas de trabalho.

Nesses mais de 12 anos de moderador/administrador de listas de discussões sobre Umbanda na Internet, consegui ver de tudo no que se refere a confrontos entre formas distintas de Umbanda e, dentro desses confrontos, a não aceitação do outro como sendo Umbanda. Temos como uso de bebida, fumo, corte, sacerdócio, feitura, atabaques, trabalhos, iniciações, entre outras coisas, mas principalmente os de teor mais africanista, sempre são vistos de forma preconceituosa. Porém, se
aceita formas externas, mas conceituadas como cultura religiosa do país católico que somos, como a imagem de Jesus e dos Santos, ou as práticas doutrinárias Espíritas onde muitos passaram e continuaram a cultuar dentro da Umbanda que definiram como a sua forma de trabalho.

Já vi mudança de significado e adaptação do que seja Orixá, para uma forma apropriada, onde o nome Orixá se transformou em outra coisa que não a sua forma Original (uma divindade Africana). Outros, em uma associação direta e da visão de Jesus como Oxalá, mas cultuando, sem perceber, o Jesus Católico e utilizando as orações da Igreja, assim como no batismo com hóstia (conseguida na igreja, consagrada por um padre – também com direito a água benta para passar na cabeça da criança que estava sendo batizada). De um outro lado, também vi a negação de qualquer forma de sincretismo, onde se pratica o culto africano na conjunção com os guias, tudo de maneira transparente e tranqüila.

Existem muitos caminhos, muitas formas e encarar que elas existam ou ter que aceitá-las como sendo Umbanda, muitas vezes, é problemático, penoso, mas é uma realidade que não se pode negar. Existe um outro caminho que é o de tentar impor uma forma, uma codificação, uma unificação, priorizando o que se pratica como sendo a Umbanda e colocando isso como verdade para modificar os outros, e, no tocante a si mesmo, não ter que modificar a sua verdade, salientando que a do outro é que está deturpada. É um caminho mais fácil, mas é o correto?

Existem conceito e formas de ver que a pessoas não irá mudar nunca, pois já foi condicionada a isso durante anos e anos, mas e os outros, e as outras formas de Umbanda? Elas deixam de existir ou são falsas e erradas só porque uma outra parte não as aceita ou não consegue vê-las como sendo Umbanda, pois isso fere os seus conceitos, as suas verdade?

Lembro que num tempo, não muito distante, que o negro era coisa, mercadoria, não tinha nem alma, abaixo até de um animal doméstico, também não tinha cultura e nem se via a cultura ou a religião do negro como algo “evoluído”, mas sim primitivo e que deveria ser combatido.

De um outro tempo em que os Russos comiam criancinhas e qualquer alusão ao comunismo ou ao socialismo eram vistos como subversão.

Hoje em dia o Islã virou sinônimo de fanatismo, de fundamentalismo, de radicalismo. Só que o engraçado é que o fundamentalismo é uma invenção do protestantismo Norte Americano, o mesmo que deu origem a Ku Klux Kan, ao movimento de supremacia branca,aos movimentos Neo-nazistas.

Estamos vivenciando um tempo de crise institucional (Estado) e social (sociedade civil) tão grade, que só “Jesus Salva” gerando um exército de pessoas marcada por medos, problemas diversos de ordem moral, de vícios de drogas e outros, que encontraram refúgio em Jesus e assumiram com isso o fundamentalismo de crenças oriundas desses mesmos Norte Americanos, traduzidas para nossa cultura Tupiniquim, onde os cultos de matriz africana (uma parte da Umbanda é de matriz africana) se tornaram os novos demônios e criou-se uma nova inquisição velada, onde esses fundamentalistas querem o poder e irão fazer de tudo para gerar uma nação baseada nesse mesmo fundamentalismo protestante (história que a história se repete, onde não se aprende com essa própria história)….

Como a realidade pode ser tão distorcida e com tanta facilidade.

Como podemos notar, a carga de preconceito e de não aceitação do outro começa com a nossa própria negação desse outro como um semelhante, como um igual, e passa pela nossa incapacidade de assumir mudanças e outras forma de ver, sentir e praticar a fé, a crença a religiosidade.

A nossa incapacidade de nos ver, o que fazemos, como sendo mais uma e não a única, a verdadeira, a correta forma de ser a Umbanda.

A história mostra que Católicos Romanos, após fundamentarem o Cristianismo, de codificá-lo, de assumir a supremacia de conceitos rígidos e únicos, começaram a perseguir outras formas de cristianismo, de perseguir outras formas de crenças e religiões. Quando se assume uma única verdade, por mais que se diga que essa verdade é de Deus, é amor, é caridade, que não matarás (os seus iguais), acaba-se contrariando tudo isso ou lhe dando uma interpretação distinta e pessoal, para que essa forma sobreviva e se imponha ‘as demais. E isso não sou eu que digo, está em qualquer livro de história geral (Imperador Constantino, Concílio de Nicéia, Cruzadas, Reforma, Contra-Reforma, Inquisição, Guerras entre Protestantes e Católicos, Noite de São Bartolomeu, Fundamentalismo …).

Para mim a Umbanda não é uma Religião muito novo e que precisa crescer, mas que os Umbandistas têm conceitos muitos proprietários e precisam crescer. Não é a Umbanda que necessita de uma codificação única, mas os Umbandistas que necessitam ver o que fazem e aos outros, codificando suas próprias práticas, doutrina, fundamentos e reconhecendo o que fazem como sendo uma parte da Umbanda e não a Umbanda. A Umbanda não é uma só e nunca foi. É mais prático ver assim e sentir assim, mas se ela assim o fosse, não teríamos tantas Umbandas, tantas doutrinas, tantas formas ricas e diversas.

Os Umbandistas é que fazem a religião crescer e se expandir (como em qualquer religião, quem a expande são os fiéis, os seus crentes), só que necessitamos nos reconhecer como iguais dentro de uma diversidade religiosa e plural, e isso só se faz se despindo dos preconceitos e em aceitar o outro como um igual.

O interessante é que alguns dizem que a Umbanda não é dogmática, mas ao dizer isso, já criaram um dogma. Dizem que a Umbanda aceita a todos e vê a todos como iguais, mas esses mesmos criticam e condenam outras práticas de Umbanda. Que é necessário ver o outro como a si mesmo, de se importar e cuidar do próximo, mas quando vêem um próximo fazendo e manifestando a Umbanda de maneira diferente a sua, o apedrejam. Dizem que a Umbanda é amor e caridade, mas se entram em contato com outras formas diferentes de Umbanda que discordam com as suas, não existe mais amor e nem caridade, só preconceito. Acho que tem alguma coisa errada nisso tudo!

Acredito que devemos rever nossos conceitos, palavras e seus significados, nossa maneira de ver e sentir, não a Umbanda, mas os diversos segmentos Umbandistas, mudando a nossa forma de enxergar uns aos outros.

Que cada um reflita…

Um abraço,

Etiene Sales

Publicação autorizada pelo Autor.

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Uma resposta para Enxergando as razões da Religião de Umbanda

  1. Odete Passos de Andrade disse:

    Concordo com suas palavras, acho que as pessoas se perderão no caminho, falta amor, falta carinho , falta abraços e aceitação, somos a imagem mas não a semelhança, as pessoas não tem mais fé pura, hoje pra se ter fé tem que ter motivo, o receio, a desconfiança cerca nosso mundo, me entreistece saber que as pessoas são tão desunidas, amo de coração a Umbanda mas me afastei, não consigo me encaixar ou encontrar um lugar para mim, sinto falta sei que cada uma das entidades que até mim vinham humildes em busca do emprestimo de minha matéria por poucos minutos muito fizeram por aqueles que as procuraram. Agradeço a Deus de coração por ter me dado este dom,mas sinto uma enorme tristeza ao mesmo tempo por neste momento não poder passa-lo e distribuir a graça de ser um médium da Umbanda. Precisamos ser humildes como um caboclo, compreensivos e mansos como nossos pretos velhos, justos como nosso Orixas e caridosos como t Umbanda é em sua essencia. E isto nimguém o é.

    Obrigado por este desabafo
    Que Deus o abençõe e que nossos anjos, arcanjos, guardiões o guarde

    Um grande abraço irmã na fé

    Odete

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