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XI

O BAIXO ESPIRITISMO

Enquanto os homens não atingirem a um grau uniforme de cultura, não poderá haver uniformidade de processos e de objetivos nas assembléias espíritas constituídas por elementos da Terra e do espaço, segundo os princípios da lei das afinidades, visando às necessidades desiguais das criaturas humanas.

Uma sessão espírita de médicos não pode ser igual a uma de estivadores, mas porque os médicos pairem em esfera intelectual mais elevada, não seria justo privar os estivadores do consolo sentimental e das vantagens morais do espiritismo.

Meter os trabalhadores na reunião dos sábios seria deslocá-los de seu meio, e até incompatibilizá-los com a doutrina, pois, nesse ambiente, o seu ensino e explanação seriam feitos através de conhecimentos e vocábulos inacessíveis à inteligência dos operários.

É certo que as sessões espíritas não se organizam por classes sociais, porém, os indivíduos de diversas categorias que as constituem ligam-se, mais ou menos, entre si, pelas afinidades.

É preciso ainda, considerar que a cultura moral e a intelectual nem sempre andam juntas. Em geral, nas reuniões reputadas de baixo espiritismo, pela humildade de seus componentes, como pela ingenuidade de seus processos, o ambiente moral é de pureza
translúcida.

A inteligência e o saber dos espíritos incumbidos da assistência a uma comunidade são sempre infinitamente superiores a mentalidade do grupo, mas o guia, para eficiência e frutificação de seu apostolado, transige com os educandos.

Se os irmãos reunidos em nome de Deus, pela fraqueza da inteligência, por hábito mental, e até por motivos metafísicos, não podem conceber o espírito puro e exigem o ponto de referência da imagem, o guia lhe faculta, mandando erguê-la e reverenciando, no local da reunião, o que ela representa. E assim no tocante a linguagem, adulterando-a, para que a compreendam e em tudo o mais.

O Estado não tem interesse em combater esses humildes centros, porque a doutrina que neles se prega, no relativo aos poderes materiais, é da obediência absoluta à lei e à autoridade, mandando dar a Cesar o que é de Cesar.

Acredito que o interesse dos espíritas que se reputam superiores também não esteja em agredir e desmoralizar essas modestas agremiações, mas em entrar em convívio amistoso com o seus membros, ensinando-lhes através da conversação, o que eles ignoram e também aprendendo o que eles sabem.

Tenho encontrado, nesses pobres centros, almas iluminadas… Um dia, na estação do Meyer, estava caído e ensangüentado na rua um pobre homem. Passaram, em multidão apressada, olhando-o e deixando-o em seu abandono, as pessoas de todas as classes. E eu, que também passava, olhei-o e deixei-o como os outros. Mas chamaram, alto, o meu nome. Era um quarentão moreno, de bigodinho, a camisa aberta mostrando o peito suado, os instrumentos de trabalho enrolados no casaco, debaixo do braço. Eu não o conhecia.

-Vamos levar este irmão para a farmácia – disse-me com confiança e naturalidade.

Levamo-lo, a farmácia era perto, mas eu fiz um grande esforço: – o ferido era pesado. Entregamo-lo ao farmacêutico. O trabalhador perguntou-lhe:

-Precisa de nós?

-Não. Vou socorrê-lo até que venha a assistência. Já telefonei para o posto.

– Então, vamos ganhar a vida.

Vendo realizar-se a parábola do Evangelho, perguntei ao desconhecido quem lhe ensinara o meu nome. Disse-me que me vira num centro paupérrimo fazendo uma conferência.

E outra ocasião, numa assembléia de humildes, quando terminei uma alocução sobre a ignorância de certos presidentes de núcleos espíritas, o guia dos meus ouvintes, tomando o seu aparelho, apenas disse:

Quando Jesus escolheu os seus discípulos, não os procurou entre os doutores, mas entre os humildes.

O baixo espiritismo não é o dos humildes, é o dos perversos, que o praticam por dinheiro, vendendo malefícios.

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