Se a carapuça servir…

CAIO DE OMULU

Trago comigo uma visão, que no movimento umbandista da atualidade, vivemos o que denomino de crise de percepção. Essa crise se refere ao fato de reconhecermo-nos como umbandistas e no entanto moldarmos a religião de acordo com as nossas necessidades, vontades e objetivos. Falta-nos espírito de corpo, visão da essência, compreensão macro-existencial da Umbanda.
Em outras palavras nos prendemos excessivamente nas diferenças e na forma de praticar a religião, adequando-as as nossas necessidades e vontades ou direcionando-as aos nossos objetivos. Esquecemos a Umbanda como essência, como obra divina, plano estruturado pelo mundo espiritual e que devia ser pautado sempre pelo nosso altruísmo, a nossa cosmovisão ampliada e um profundo senso de fraternidade e consciência planetária.
Tá, podem me perguntar alguns, mas aonde isso nos levaria?
Desculpe-me, realizar uma comparação com aqueles que mais detratam e criticam a nossa religião, mas temos que reconhecer as qualidades existentes no alheio, por exemplo, os evangélicos.
Independente das diversas interpretações que os mesmos fazem do texto bíblico, o que produz os diferenciados segmentos do protestantismo, todos os evangélicos tem um forte espírito de corpo e principalmente uma comprensão macro-existencial de sua religião. Todos eles são evangélicos (espírito de corpo) e possuem um pensamento estruturado comum do Protestantismo e da Reforma (visão macro-existencial). O afunilamento somente ocorre em questões interpretativas que acabam não prejudicando o todo.
Qualquer evangélico tem a perfeita noção do universo da sua religião, qual o papel do pastor, qual doutrina ele como adepto deve professar, seus direitos e deveres, como o segmento em que ele realiza a prática está inserido no universo do Protestantismo e principalmente, ele sabe contextualizar perfeitamente tudo isto em sua vida. Por fim, todo o evangélico entende, que independente dos diversos segmentos, a religião possui uma essência e ela é preservada acima de qualquer coisa.
E aonde eles (os evangélicos) conseguem chegar com tudo isso? O espírito de corpo, a visão da essência e a compreensão macro-existencial que eles tem bem definidos, proporciona:
a) O aumento inquestionável de prosélitos (adeptos);
b) A presença política marcante;
c) A inclusão na sociedade;
d) A existência de uma militância, com forte senso de grupo e capaz de realizar uma ferrenha defesa da religião como um todo (seus credos e doutrinas), em qualquer situação ou instância que se faça necessária.
Evidentemente que falo de uma forma geral. O movimento umbandista, não é totalmente destituído desses valores, existem trabalhadores sérios, que possuem e disseminam essas qualidades, bem como, no caso dos evangélicos nem tudo são flores. O que eu quero chamar atenção é que existe sim, um distanciamento ainda muito grande do que eles (evangélicos) alcançaram, para o que até hoje conseguimos realizar de fato.
Muitos estudiosos do movimento umbandista já dissertaram amplamente sobre a característica que a Umbanda possui de ser uma religião abarcadora de consciências (eu sou um dos que defendo esta tese). Para realizar esse trabalho ela possui pontos de contato (escolas e/ou terreiros) que possibilitam a aglutinação do maior número possível de consciências, portanto, graus de entendimento amplamente diferenciados. Dizemos comumente, que sempre existe um tipo de terreiro adequado para qualquer pessoa. É verdade!
Se este fato é verídico a sua realidade esta mal empregada em alguns casos. Aqui é onde se gera a maioria dos nossos problemas. Muitos Pais/Mães-de-Santo conduzem o seus terreiros de forma personalista, gerando uma coletividade a sua imagem e semelhança.
Sedimentados na herança patriarcal e matriarcal, que é histórico no movimento umbandista (e quanto a isto, nada tenho contra) os abusos são flagrantes e depõe visivilmente contra a religião e na formação dos umbandistas, que dessa coletividade fazem parte.
Existem Pais/Mães-de-Santo, que claramente se colocam na posição de donos da religião e que adotam o procedimento de serem, para os seus filhos-de-santo, o caminho, a verdade e a vida e que nenhum deles chega a Umbanda, senão através deles. Monopolizam a vida dos filhos-de-santo; determinam o que fazer, como agir, que caminho seguir; impõem condições; exigem fidelidade e total dedicação; cerceiam o livre-arbítrio e não permitem o exercicício do livre pensar.
Outros realizam as mesmas coisas, mas de forma mais sutil. Criam uma aura de endeusamento em torno de si, de infalibilidade (são infalíveis, não se enganam em questões religiosas, mediúnicas, de fé, moral e pessoal), geralmente formam seguidores e não umbandistas. Neste último caso, a formatação desta idolatria é tão impercepitível, que surge de forma espontânea do próprio adepto, ao não perceber a manipulação no qual foi envolvido. Ele acredita na vivência que está tendo como verdade e transforma isto na sua realidade.
Resultado: a criação de minifundios, ou pequenos espaços pessoais dentro do movimento umbandista, que se transformam em “umbandinhas” dentro da Umbanda.
“Sim, a nossa religião é a Umbanda, todos somos umbandistas, mas para mim a forma como eu ensino, pratico e dirijo o meu terreiro é o certo”, assim pronunciam-se os Pais/Mães-de-Santo das “umbadinhas”.
Esse processo tem dois objetivos principais:
1) Acorbertar as suas próprias deficiências como pessoa e dirigente (Ex: ignorância, falta de cultura, estudo etc.);
2) Garantir a sua sobrevivência (a maioria vivem da religião e não para a religião) e a construção de um partimônio pessoal.
No primeiro objetivo temos como defesa as célebres frases: “Experiência de vida é mais importante do que estudo e cultura” e “A minha entidade espiritual através da minha mediunidade me dá tudo, eu não preciso saber de nada”. No segundo objetivo, embora ocorram casos, que entendo a necessidade de algum tipo de remuneração, invariavelmente existe um determinado instante, que começa ser abusivo, saindo da ajuda básica para a exploração. Muitos perpetuam uma realidade de vida humilde e de necessidade de sobrevivência, escondendo de todos um patrimônio acumulado, que a muito os coloca no patamar de riqueza invejável.
Por conta desses minifundios, dessas situações, graças a Zambi, de exceção, mas mais comum do que desejaríamos, a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, ou seja, a do filho-de-santo. E ao chegarmos a essa ponta é que encontramos o verdadeiro crime de lesa-consciência. No caso da imposição, da subjugação e da opressão encontramos o medo que toma conta do adepto. Medo da demanda, medo da vigança, medo da agressão verbal e mesmo física, enfim, medo. Já quando a situação é criada pela manipulação sutil, o endeusamento, o deslumbramento ou o maravilhoso é a própria armadilha, sendo isto mais perigoso, no meu ponto de vista, do que o medo puro e simples. O carrasco mesmo é que coloca a situação a perder, sua arrogância e prepotência é tão extrema, que ele acaba fazendo algo ou tomando uma atitude que encerra a sua relação com o adepto, de forma às vezes inconsequente. Ele mesmo mete os pés pelas mãos.
O manipulador não, ele conta com a permissividade das pessoas. De fato, por um longo período, o adepto pode pensar que tudo é gerado dele mesmo (adepto), de forma espontânea e natural. Os manipuladores criam um cordão de isolamento ao seu redor, se encastelam de tal forma, que não é possível ao filho-de-santo não deixar de olhá-los como deuses. O composto emocional existente nessa troca é poderoso e magnético. Seria impossível descriminar todo o método envolvido nesse estado de coisas. Para os manipuladores, da condição de pedinte humilde e necessitado, ao de visivelmente agradecido, da situação de totalmente dependente, ao de segurança de que pode fazer da vida do seu filho-de-santo o que bem desejar é um pulo. O manipulador suga o que for possível, descarta quando não lhe serve mais e substitui por um novo alvo.
Ao contrário do carrasco, que pode por uma atitude impensada, perder definitivamente o seu filho-de-santo, o descartar para o manipulador é colocar o manipulado na geladeira, pois nunca se sabe quando ele poderá ser útil novamente. A prepotência e arrogância do manipulador esta na certeza que ele tem, de que, qualquer atitude tomada por ele aos olhos do seu filho-de-santo, será entendido como um bem maior para a sua vida.
Na manipulação, famílias inteiras são envolvidas. Quanto maior for a rede de entrelaçamento produzido pelo manipulador, maior é a dificuldade que o filho-de-santo tem para despertar de tudo isto.
As coletividades em ambos os casos, são vítimas e se tornam doentes. Carrascos e manipuladores são cegos guiando cegos. Os dirigentes dessas coletividades esquecem ou de propósito não querem lembrar as suas responsabilidades espirituais e religiosas, sem que essas primeiro não satisfaçam plenamente os seus próprios interesses. Loucos ensandecidos pela próprio egoísmo, pela própria arrogância, prepotência e ganância. Os filhos-de-santo dessas coletividades, estão nessa por inocência, ingenuidade, ignorância ou total desconhecimento, outros são como uma matilha de aproveitadores, que se locupletam da desgraça alheia e existem aqueles que descobrem completamente a realidade e por terem transformado tudo isto em um fim para a sua vida religiosa, espiritual e material, não conseguindo darem o grito de independência e tomar as rédeas de suas vidas nas mãos novamente, se conformam apenas a jogar o jogo conforme as cartas sejam dadas. Os dois últimos tipos de filhos-de-santo são covardes, os primeiros cegos.
O que a Umbanda e o movimento umbandista ganham com toda essa situação aqui exposta? Nada! A não ser mais divisão, mais distanciamento do seu objetivo-fim, ou seja a evolução espiritual planetária.
O mundo hoje é uma aldeia global, a difusão de conhecimento é hoje uma realidade democrática, conceitos como inclusão social, cidadania, direitos e deveres, estão na ordem do dia. Responsabilidade social, incluso aqui a religiosa são necessidades urgentes. O efeito borboleta, ou seja, qualquer ato menor que realizemos influi na coletividade e porque não dizer no planeta e no universo, é fato. Consciência planetária e espiritual deixaram de ser utopias.
A Umbanda não é uma religião estática e sim dinâmica, ágil e mutável. O movimento umbandista não pode conviver com situações medievais deste tipo e com outras tantas que se perpetuam, sem motivo algum para continuar existindo.
Cabe a nós umbandistas, irmos sim, a busca da essência e da compreensão macro-existencial de nossa religião. Somente assim, criaremos o espírito de corpo necessário a colocarmos definitivamente a Umbanda no trilho do terceiro milênio.
Mas, antes de mais nada, devemos cuidar pessoalmente da nossa evolução espiritual. Esse é um direito inalienável, que pertence exclusivamente a cada um de nós. Pais/Mães-de-Santo devem sim, servirem de orientadores e facilitadores desse desenvolvimento, mas tão somente isso. Eles não são donos de nossa individualidade, proprietários de nossa vida e muito menos de nossa consciência. Faz-se necessário que estejamos em constante vigilância e permanentemente alertas! Devemos ser senhores do nosso destino! Cabe a todos os Pais/Mães-de-Santo instruir os seus filhos-de-santo para essa conquista, essa maestria da vida.
Eis, o motivo pelo qual, reconheço as possíveis polêmicas e surpresas, que os artigos desse blog, devem causar aos que lêem. Realmente eu não tampo o sol com a peneira, a Umbanda já possui de sobra aqueles, que procuram apresentá-la no seu devido papel de religião, que preferem disseminá-la através de sua história, mitos, lendas e discorrer sob a sua forma.
Esse espaço, não é serventia para essa linha de raciocínio, explicar a religião já o fiz em quase 400 páginas no meu livro.
Em detrimento, as situações que comumente eu cito em meus textos, oriundos de anos de participação em listas de discussão na internet, contatos com umbandistas em todo o Brasil e no exterior e fruto da observação direta, eu sei da existência e reconheço os esforços louváveis e trabalhos exemplares que são realizados por muitos nas coletividades locais e no universo do movimento umbandista, com intuito de mudar a imagem da Umbanda e tentar extirpar de vez esses atrasos, a estaticidade e os recrudescimentos latentes em nosso seio. Cito, para ficar no exemplo, o CONUB – Conselhos Nacional de Umbandistas, a FTU – Faculdade de Teologia Umbandista, a RBU – Rede Brasileira de Umbanda, entre tantos outros.
Como escritor umbandista e estudioso, há mais de 25 anos da nossa religião, cumpro aqui o papel de aguilhão, em outras palavras, de instigador de consciências com o único propósito de despertar os irmãos-de-fé. De mexer sim, com esse estado de coisas, que nada contribuem para o crescimento e engradecimento da Umbanda.
Acredito sinceramente, que aqueles que se dispuserem a ler o conteúdo desses textos, com isenção de ânimo, sem estar sendo levados pela paixão desenfreada e idéias pré-concebidas; imbuídos da tentativa escusa de descobrir entre-linhas, duplo sentido, colocar palavras na minha boca e motivação canhestra, bem como, interpretá-los com o objetivo de tirar proveito para si próprio, perceberá nada mais, nada menos, que o real sentido de tudo é fornecer um rico material para estudo e reflexão.
Afinal, quem tiver visão que enxergue e ouvidos que escutem!
É importante frisar, que as situações postadas em todos os meus textos, não se remetem a nenhum local específico ou pessoas conhecidas, a não ser quando direta, nominal e claramente forem citadas e sim, representam exemplos de fatos narrados por terceiros ou observados ‘in loco’ por mim, nas minhas andanças, viagens e pesquisas.
No entanto, amigo leitor, me desculpe, mas se a carapuça servir, com certeza, é porque você tem culpa no cartório.

CAIO DE OMULU

http://umbandasemmisterio.blogspot.com

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