OBSESSÃO E DESOBSESSÃO NOS TERREIROS DE UMBANDA

Apenas uma opinião!

A procura, por uma casa umbandista, remete invariavelmente a tentativa de solucionar
problemas.

Existe uma assertiva de que as pessoas, quando atravessam o portal de um templo,
terreiro, choupana ou tenda de Umbanda pela primeira vez, o fazem movidos pela dor, sofrimento ou problemas diversos.

No geral, podemos dividir esses motivos em duas situações distintas, mas que em
determinados casos, se entrelaçam confundindo-se e inferindo uma na outra: problemas de ordem espiritual (pertubações, desequilíbrios psíquicos e psicológicos, demandas, disfunções mediúnicas etc.) e de ordem material ou emocional (doenças, desemprego, problemas amorosos, falta de recursos financeiros, etc.).

É fato, que um terreiro de Umbanda deve sempre estar preparado para uma pluralidade
de possibilidades de atendimento. Não existe especialização, não podemos, a priori, limitar os trabalhos das entidades espirituais apenas a este ou aquele tipo de caso. Evidente que existem situações, cuja natureza da solicitação leva a uma questão ética e moral, que impedem a sua realização, mas isso é outra conversa. O importante é estarmos conscientes, que a qualquer instante, podemos nos deparar com a necessidade de fornecermos desde uma simples orientação, até a complexidade de realizarmos um atendimento, que se resolva apenas com um trabalho espiritual, envolvendo diversos elementos, esforços mediúnicos e muito tempo.

Diante dessa multidiversidade de atendimentos, não é difícil, que em algum instante, nos deparemos com a obsessão e a necessidade de realizarmos um trabalho de desobsessão.

Sobre este assunto nos deteremos a partir de agora.

A primeira vista, quando falamos em obsessão, desobsessão, obsessor e obsediado
parece que deixamos a seara da Umbanda e adentramos no universo do Espiritismo.

Obsessão e desobsessão existem desde que o mundo é mundo, ou pelo menos desde que as civilizações surgiram. Entretanto, ganhou cores, explicação, vocabulário próprio e estudos diversos, com o surgimento da codificação kardequiana, no fim do séc. XIX. Obsessão é uma das principais preocupações e desobsessão é um dos diversos trabalhos realizados pelos Centros Espíritas ou Sociedade Espíritas, como desejam alguns kardecistas. Assim, temos no Espiritismo o maior volume de informação, metodologias de tratamento e experiências acumuladas sobre o referido tema.

Muitos terreiros de Umbanda recorrem a esse cabedal de conhecimento do Espiritismo,
para lidar com a obsessão, aplicando as soluções kardecistas para realizar as desobsessões, frente aos casos que aparecem no seu dia-a-dia. Por que ocorre isto? O motivo é simples.

A Umbanda historicamente surge no início do séc. XX, por fatos ocorridos dentro da
FEB-Federação Espírita Brasileira, então sediada no Rio de Janeiro, portanto depois da codificação de Kardec e consolidação do Espiritismo na Europa e principalmente no Brasil. Os fatos, que envolveram Zélio e o Caboclo das 7 Encruzilhadas na FEB, são de domínio público e não cabe aqui repetí-los, mas existe sempre um ponto pendente e jamais desenvolvido ou questionado pelos estudiosos umbandistas: se a FEB, casa mater do Espiritismo no Brasil, tivesse aceito as incorporações das entidades que se manifestaram no público presente,
conforme os relatos e testemunhos da época, será que o Caboclo das 7 Encruzilhadas teria decidido fundar a Umbanda, para permitir a manifestação de caboclos, pretos-velhos e demais falanges trabalhadoras? Essa é uma pergunta que volta e meia me faço. Será que não estaríamos, hoje por dentro do Espiritismo, ou talvez no máximo sendo uma escola ou segmento espírita? Desculpe-me a ilação.

Retomando a linha de raciocínio, outros motivos levaram ao imbricamento ou a absorção do know-how espírita, com relação à obsessão e desobsessão, pelos terreiros de Umbanda. O primeiro congresso umbandista (1940), que procurou realizar uma aproximação visível com o Espiritismo, proximidade esta plenamente rejeitada pelo congresso espírita, que aconteceu na mesma época; o surgimento da Umbanda de Cáritas e mesmo na atualidade a proliferação de romances umbandistas e de espíritas sobre a Umbanda, que inserem o universo pós-morte a uma situação de similaridade ou de perfeita adequação com o mundo espiritual na visão kardequiana.

Ora, se no mundo espiritual não existe nenhuma diferenciação na realidade espírita e
umbandista, se no fim de tudo, a visão kardequiana é a que prevalece, por que não adotarmos o Livro dos Médiuns como referência para a mediunidade umbandista, o Livro dos Espíritos para nos responder as questões primordiais e a vasta literatura e estudos espíritas, quando precisamos resolver casos de obsessão, aplicando as soluções de desobsessão amplamente ali divulgadas? Eis a questão.

A obsessão é tema comum e preocupação, tanto do Espiritismo como da Umbanda,
ninguém questiona isso. O trabalho de desobsessão é que deveria, ser realizado nos terreiros, usando o conhecimento, os conceitos, os parâmetros, os elementos, a ritualística, a liturgia, ou seja, a rica gnose e o tratamento espiritual próprio da Umbanda.

Sei, vocês agora podem estar pensando, mas não é isso que acontece? Não.

A bem da verdade, muitos umbandistas, dirigentes de terreiros inclusive, acreditam haver uma divisão clara, entre os campos de ação da Umbanda e do Espiritismo. Enquanto, a Umbanda se limitaria aos casos de ordem espiritual e material explicitados no início deste artigo, ao Espiritismo seria inerente as questões de doutrinação, evangelização, obsessão e correlatos. Eu mesmo, fui um dos que, por diversas vezes, usei este tipo de argumento.

Alguns terreiros chegam ao ponto de dividirem seus trabalhos, com um dia determinado
para as giras de Umbanda e outro dedicado exclusivamente, as sessões espíritas ou mais
conhecidas como mesas brancas.

Waldo Vieira, médium espírita, antes de voltar-se inteiramente a Projeciologia, na época
em que psicografava romances, forneceu uma entrevista polêmica, em que afirmava a necessidade de dirigentes de Centros Espíritas, em manter um vínculo de amizade com dirigentes de Terreiros de Umbanda e vice-versa, para que os casos surgidos no dia-a-dia de cada um, sendo inerentes a seara do outro, pudessem ser devidamente encaminhados. Waldo proclamava uma salutar parceria entre Centros Espíritas e Terreiros. Foi execrado.

Quantos terreiros, não recomendam aos que estão dando os primeiros passos na
Umbanda e as vezes até na espiritualidade em geral, as obras espíritas como referência?

Quantos terreiros não iniciam os ensinamentos básicos, através de cursos baseados no ESDE (Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita) e nos livros da codificação de Kardec? Quantos umbandistas, não respondem as questões primordiais, quem somos, de onde viemos e para onde vamos, com a visão do Espiritismo? Fica assim, muito difícil dissociar uma coisa da outra.

Não dá para entender, que diante do nível de complexidade, que os trabalhos
umbandistas podem chegar, não tenhamos desenvolvidos um modus operandi e faciendi próprio para tratarmos casos de obsessão. Rica, como sempre digo, a Gnose Umbandista possui de motu próprio, soluções as mais variadas para os trabalhos de desobsessão. Não me cabe aqui listar quais são elas. Uma coisa é certa, se a dor é a mesma (obsessão), o diagnóstico, bem como, o receituário podem ser totalmente diferentes, logo cada caso é um caso. Não existem receitas de bolo, quando a problemática é obsessão.

Outro ponto relevante a se destacar, é se as características da mediunidade
umbandista, permitem que nossos médiuns incorporem espíritos obsessores, no nível de servir plenamente de instrumento para um trabalho de desobsessão.

Acredito sinceramente, que as condições psico-energéticas para uma incorporação das
entidades de nossas falanges trabalhadoras, diferenciam, em muito, da incorporação de obsessores ou de espíritos sofredores, como são assim denominados nos círculos espíritas. No meu entendimento, somente em casos extremos, isto pode ou deve ocorrer.

Embora válidos e dignos de respeito e consideração, os trabalhos encetados pelo
Espiritismo, não devem servir de base e solução para os casos de obsessão, que existem ou chegam ao mundo dos terreiros umbandistas.

O movimento umbandista precisa amadurecer, diante desses imbricamentos com o
alheio. Sincretizamos demais e aderimos com facilidade as novidades. A catolização imposta, a espiritização recorrente, a candomblelização histórica e por último, recente, o movimento de apometrização da Umbanda, divergem da linha original, descaracterizam a forma e são totalmente desnecessárias ao momento atual e o desenvolvimento rito-litúrgico futuro da nossa religião. Universalidade e Diversidade são conceitos diametralmente opostos à manutenção de determinadas situações e não significam agregação de tudo que se deseje aderir a Umbanda.

Os que me conhecem sabem que não sou um purista e radical, não faço apologia a codificação, respeito a diversidade das escolas do movimento umbandista e acredito na ancestralidade e universalidade da Umbanda. Somente, acredito que, a nossa religião é resolvida em si mesma e possui soluções originais, explicações próprias para todas as coisas.

Tendo a plena condição de resolver casos de obsessão sem se valer de desobsessões definidas pelo alheio.

Como está explícito no título, esta é apenas uma opinião.

Namastê,

Caio de Omulú

http://umbandasemmisterio.blogspot.com

Retirado do Correio de Umbanda nº 20 – Agosto de 2007 –

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8 respostas para OBSESSÃO E DESOBSESSÃO NOS TERREIROS DE UMBANDA

  1. silvana disse:

    bom apezar de não trabalhar em nenhum centro de terreiro mas por falta de espaço na minha propria casa concordo plenamente com o que vc diz umbanda não tem nada a haver com cardecismo pois conheço e respeito as duas. trabalho sozinha com o exu sr tiriri sou medium de descarrego e sei muito bem a diferença de espiritos sofredores e obsessores vampiros e principalmente eguns e por esta razão que concordo com o que vc diz1

  2. Carlos disse:

    Concordo muito com o que foi dito a respeito do modo como se iniciou a umbanda, sou medium umbandista após longo estudo da doutrina kardecista, ou seja, após estudar a codificação em todo seu contexto, encontrei meu caminho na umbanda tradicional, recebo meus guias espirituais, caboclo, preto velho, etc, e sei que se não fosse pelo elitismo praticado no kardecismo, a umbanda e o espiritismo hoje seriam uma coisa só, e apesar de respeitar demais o kardecismo, sei que a repulsa parte deles, apesar de que quem domina a magia e a mironga é a umbanda, porém somos muito mais humildes, trabalho efetivamente muito mais com a direita, respeito a esquerda, sei que são trabalhadores em evolução, porém, entendo que precisa de um chefe para que um funcionário sem qualificação completa execute um trabalho digno e afim com o bem.
    A desobsessão é amplamente realizada com sucesso nos terreiros de umbanda que possuem a devida orientação e preparação de seus médiuns.
    Esse, na minha opinião, é o fator mais importante.
    Gostei muito do texto, Caio de Omulu.

  3. Luiz Mario disse:

    http://aigrejacatolica.blogspot.com/
    O Bispo Católico Dom Aldo Di Cillo Pagotto, arcebispo do Nordeste, deu uma entrevista ao porograma Espiritismo Via Satélite. Programa este apresentado pelo senhor Alamar Régis Carvalho. Durante a entrevista, Dom Aldo disse, li Paulo e Estevão, (obra psicografada por Chico xavier) quem não leu não sabe o que está perdendo. Estive com Chico Xavier e me vi diante de um santo. Durante um encontro do CNBB, em Santa Catarina, um bispo pediu satisfação a Dom Aldo, sobre a referia entrevista. Os ânimos se exaltaram, então os bispos disseram (haviam cerca de quinhentos bispos). Nós tiramos a reencarnação da Bíblia. Precisamos rever esta tese. Nós tiramos a mediunidade da Bíblia. Precisamos rever esta tese. Entusiasmado com o fato, o Senhor Alamar promoveu com o auxílio da USE, União das Sociedades Espíritas, O 1° Encontro Espírita do Estado de São Paulo ENCOESP. Encontro este que seria realizado, em Janeiro de 2001 no Anhembi. Estes mesmos Bispos pretendiam fazer, uma reforma no Cristianismo, a partir do Brasil, e apresentar ao mundo o Espiritismo, com sendo o Cristianismo redivivo. O senhor Alamar disse inclusive, que os espíritas que fossem ao encontro, ficariam surpresos. Pois o Anhembi estaria lotado de bispos da igreja católica, pois participariam do evento, bispos do Brasil e do mundo. Estavam convidados para serem os palestrantes, Dom Aldo Di Cillo Pagotto, o padre José Linhares Pontes, que é ou era deputado federal pelo Ceará, e o pastor protestante Nehemias Marien. Só Dom Aldo Pagotto não pode ir. O motivo pelo qual Dom Aldo não pode comparecer, foi que trinta por cento daqueles bispos, que estavam no encontro do CNBB em Santa Catarina, disseram: Se for para a acabar com a Igreja Católica, vai ter sangue no Anhembí. Ameaçando assim matar a tiros de metralhadora Dom Aldo Pagoto, caso ele compareçesse ao evento. Houve uma reunião de emergência, pensaram ou em chamar a polícia, ou avisar a imprensa. Foi decidido então que era cedo, para os bispos fazerem tal afirmativa, a respeito do doutrina espírita. O Dom Aldo recuou, e o evento não aconteceu da forma como havia sido previsto. O senhor Alamar Régis Cavalho é hoje presidente da Rede Visão de TV.

  4. Maristela disse:

    Parabéns pelo artigo!
    Concordo com tudo o que foi dito. Nós, médiuns da Umbanda precisamos lutar mais pela nossa bandeira, lutar contra o preconceito que se criou contra os terreiros. Precisamos estudar para entender o que ocorre nos terreiros, sem medo de falar do lindo trabalho desenvolvido pela Umbanda.
    “A Umbanda é linda, tão linda é, quando seus filhos são filhos de fé.
    A Umbanda é linda, contém caboclos,
    quem não tem fé, meu pai, chora no toco…”

  5. Francisco disse:

    Muito interessante tudo que foi exposto acima, gostaria muito de conversar sobre tudo pessoalmente, por favor me indique um endereço e um telefone para que possa marcar este encontro, um grande abraço.

    RESPOSTA

    Envie-me um e-mail que lhe repasso o que quer alexdeoxossi@yahoo.com.br

  6. A.Perroni disse:

    Gostei do comentário do artigo aqui escrito e mais ainda, do entendimento e desenvolvimento das pessoas que aqui deram seus depoimentos, como é o caso da Silvana eu trabalho também com o meu exu Marabô sozinho sem vínculo a uma cas espirita por ainda não achar dentro destas verdadeiros irmãos com fé… e tenho aprendido com as minhas entidades muito sobre a vida em ambos os lados, um abraço, meu site para contato para troca de informações e estudos é perroni_a@hotmail.com

    • celso carvalho de souza disse:

      Caro Irmão.
      Nosso Deus Único o abençoe e aos seus guias.

      Sou Espírita. Conheço Casa de Umbanda.
      Leio temas a respeito. Conheço guias, ou mentores, com os quais já falei e pelos quais tenho carinho, respeito e gratidão.
      Penso ser coerente suas colocações. Os diversos segmentos filosóficos e religiosos, estão mesmo enxertados de teorias e práticas que lhes são estranhos. E muitas vezes, isto acaba por comprometer os metodos e sistemas prórios de trabalho. Entretanto irmão, penso que o preconceito, que repudio e lamento, tem sim ao longo do tempo,
      evitado que nós encarnados, cumpramos melhor a nossa parte, no resgate de irmãos e irmãs, atingidos
      pelas calamidades do ódio, da indiferença, dos amores desfeitos e ou traídos em todos os seus níveis, do enfraquecimento da fé e da esperança, do desamparo em todos os seus níveis, etc. etc. etc.
      Mas, felizmente, lendo aqui e ali, livros de autores críveis, posso observar e com muita esperança verificar que, do lado de lá, nossos guias e mentores
      trabalham em conjunto, por diversas razões mas, pela principal delas O AMOR A CARIDADE.
      Sugiro ao querido irmão, com o devido respeito, que dê uma olhada, se já não o fêz, no livro LOUCURA E OBSESSÃO, de psicografado pelo nosso irmão Divaldo Pereira Franco. Prá mim, foi extremamente consolador, animador ainda mais, constatar que os nossos irmãos maiores, em nome de Nosso Pai Criador, seguem trabalhando sem barreiras sejam elas doutrinárias, filosóficas ou religiosas, com os homens, sem os homens e apesar dos homens.
      Saravá irmão.

  7. Ana Beatriz disse:

    Gostei muito do comentário, gostaria que entra-se em contato comigo via e-mail

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